"Sou indiferente ao seu
sofrimento, por você ter sido indiferente ao meu amor. Eu te quis, eu me
declarei, eu te esperei, eu me humilhei. Não tive medo de deixar que esse
sentimento explodisse dentro de mim. Foi incontrolável, foi forte, foi sincero.
Eu não tive medo de te dizer como eu me sentia. Eu me entreguei, eu fui sua por
inteiro, de corpo, alma e coração. Enquanto você encenava o tempo todo, e eu
cega nada percebia. Tudo que eu te dizia era verdadeiro, e você sorria, me
beijava, me amava. Me dando a entender que sentia por mim, tudo que eu sentia
por você. Por algum tempo me fez acreditar que meu amor era correspondido. E
quando descobri todo o seu fingimento, demorou um pouco para que a minha “ficha
caísse”. Foi difícil aceitar que eu amei alguém que não teve sequer
consideração por mim. Mas eu consegui reverter, foi muito mais difícil arrancar
todo esse amor que deixar ele nascer. Mas eu consegui tirá-lo de mim. Você não
deixou que ele nascesse sem a menor intenção de correspondê-lo ? Então, eu fiz
questão de que ele morresse dentro de mim, e sem me importar se agora você se
machucaria com isso. Foi você quem resolveu me dar valor tarde demais. Não
posso dizer que sou totalmente indiferente. Quando digo que não me importo,
quero dizer que não ligo que você sofra. Eu até gosto da ideia. Um coração
quando é pisado é capaz, sem dúvida, de transformar amor em ódio. E se hoje
você sofre, aceite. Ninguém fez isso com você. Foi você quem fez consigo mesmo.
O meu desejo agora é que você conviva com isso durante muito tempo. Quero que
sofra, que sinta remorso, que se arrependa, e veja que não pode fazer nada para
reverter isso. Pareço horrível? Graças a você fiquei assim. Suas atitudes
imaturas me deixaram marcas. Agora, o meu corpo eu tenho de volta, e acredite
ele nunca mais será seu. Já o meu coração, não é mais o mesmo. Afinal, eu estou
sem um pedaço dele. Mas não pense que esse pedaço está com você, ele não existe
mais, você o destruiu. E o que restou não é mais capaz de amar."
(Clarice Lispector)